Primeira Casa da Igualdade Racial do RS representa um passo concreto em uma luta que exige compromisso permanente
Por Redação Gazeta Gaúcha
Portal GZ1.com.br
Coluna – Deputada Federal Denise Pessôa PT
Caxias do Sul RS
Foto: Maria Bárbara Munari
A inauguração da primeira Casa da Igualdade Racial do Rio Grande do Sul, em Pelotas, precisa ser compreendida pelo que ela realmente representa: um passo concreto diante de uma desigualdade que não é pontual, é estrutural.
Pelotas tem uma expressiva população negra. Isso por si só já impõe um desafio e uma responsabilidade: garantir que políticas públicas cheguem onde historicamente houve ausência do Estado.
Eu falo como deputada federal, mas também como uma mulher negra que conhece, na prática, o que significa viver em um país onde gênero, raça e classe definem quem tem acesso a direitos e quem fica à margem.
Nós mulheres somos maioria na população brasileira. Ainda assim, ocupamos cerca de 18% das cadeiras na Câmara dos Deputados. Quando olhamos para as mulheres negras, esse número é ainda mais alarmante: não chega a 6%. Isso não é falta de capacidade. É resultado de uma estrutura que foi construída para nos excluir.
E quando nós atravessamos essas barreiras e ocupamos esses espaços, a resposta muitas vezes vem na forma de violência. A maioria das mulheres na política relata já ter sofrido algum tipo de ataque. Não se trata de divergência, e sim de mais uma tentativa de silenciamento.
Essa violência não começa na política. Ela começa muito antes. Está nas casas, nas ruas, nos territórios. E, muitas vezes, termina da forma mais extrema.
No Brasil, os dados de feminicídio revelam uma realidade dura. E há um recorte que precisa ser enfrentado: a maioria das vítimas são mulheres negras. Isso acontece porque são elas que têm menos acesso à proteção, à renda e às oportunidades.
A desigualdade no Brasil não é invisível. Ela é concreta. Mulheres ganham menos que homens. Mulheres negras recebem significativamente menos — em muitos casos, menos da metade do que homens brancos. E ainda são elas que sustentam a maior parte do trabalho não remunerado, cuidando da casa, dos filhos, dos idosos — sustentando a vida todos os dias.
Não é natural. É uma estrutura de exploração. É por isso que a criação da Casa da Igualdade Racial é tão importante. Porque ela representa a presença do Estado onde historicamente houve abandono. Representa um espaço de acolhimento, mas também de articulação e de construção de políticas públicas voltadas à promoção da igualdade.
Mas sabemos que isso não vem sozinho, não resolve o problema. O que enfrentamos é maior. Exige políticas públicas permanentes, investimento contínuo e compromisso real com a transformação. Exige ampliar a rede de proteção, garantir autonomia econômica e enfrentar a violência em todas as suas formas.
Exige também enfrentar a sub-representação. Afinal sem mulheres, e especialmente sem mulheres negras nos espaços de decisão, a desigualdade segue sendo reproduzida.
O debate realizado pelo Coletivo Mulheres em Luta (MEL) em Pelotas na última quinta-feira reforça exatamente isso: não há democracia plena enquanto mulheres seguirem fora do poder e enquanto a violência — política, econômica e social — seguir sendo usada como mecanismo de exclusão.
Igualdade não é discurso. É uma decisão política. E enfrentar essa estrutura é uma tarefa coletiva, que exige coragem, organização e compromisso.
Deputada Federal Denise Pessôa PT


