O tempo de viver também é um direito

Por Redação Gazeta Gaúcha

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Colunista: Deputada Denise Pessoa PT

Caxias do Sul RS

Foto: Rede Social

 

Quem limpa, atende, vende, produz, cozinha, cuida, transporta e movimenta a economia deste país tem cada vez menos tempo para viver. Entre uma jornada de trabalho exaustiva e as responsabilidades que continuam depois do expediente, milhões de brasileiros e brasileiras enfrentam uma rotina que deixa pouco espaço para o descanso, para a família, para o lazer e para o cuidado consigo mesmos.

Essa realidade tem rosto, gênero e raça. Mulheres negras trabalham mais, ganham menos e carregam as jornadas mais pesadas do país. É por elas — e por toda a classe trabalhadora brasileira — que votei pelo fim da escala. Na sessão da última quarta-feira, dia 27, tivemos uma vitória histórica pela classe trabalhadora: aprovamos o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, sem redução de trabalho. 

Quando falamos sobre reduzir a jornada de trabalho e superar um modelo que exige seis dias de trabalho para apenas um de descanso, estamos falando sobre dignidade humana. Estamos falando sobre o direito ao tempo. O direito de viver para além do trabalho.

Os números ajudam a entender a dimensão desse desafio. Hoje, cerca de 14,8 milhões de brasileiros trabalham na escala 6×1. Além disso, mais de 37 milhões ainda cumprem jornadas semanais de 44 horas. Entre aqueles submetidos à escala 6×1, as mulheres representam 42,7% da força de trabalho.

Mas os dados contam apenas parte da história. Para milhões de mulheres, especialmente mulheres negras, a jornada não termina quando acaba o expediente. Elas seguem responsáveis pela maior parte do trabalho doméstico, pelo cuidado com os filhos, com os idosos e com a organização da vida familiar. São trabalhadoras que sustentam a economia e, ao mesmo tempo, sustentam a vida.

Tenho convicção de que esse é um debate necessário para o Brasil do século XXI. Ao longo da história, toda conquista trabalhista encontrou resistência. Foi assim com a limitação da jornada, com as férias remuneradas, com o descanso semanal, com a licença-maternidade e com tantos outros direitos que hoje parecem naturais, mas que foram resultado de muita luta da classe trabalhadora. Em todos esses momentos, houve quem dissesse que ampliar direitos prejudicaria a economia. A história mostrou exatamente o contrário.

O mundo do trabalho mudou. A tecnologia avançou, a produtividade aumentou e novas formas de organização surgiram. No entanto, milhões de trabalhadores e trabalhadoras seguem submetidos a jornadas exaustivas, enquanto os ganhos produzidos por essas transformações não se convertem em mais qualidade de vida para quem gera a riqueza do país.

Esse modelo também cobra um preço alto na saúde da população. Apenas em 2024, o Brasil registrou cerca de 500 mil afastamentos do trabalho relacionados a transtornos mentais, como ansiedade, depressão, síndrome de burnout e exaustão emocional. São números alarmantes que revelam uma realidade conhecida por quem vive a pressão diária de jornadas intensas, baixos salários e insegurança no trabalho.

Por isso, o  fim da escala 6×1 não é apenas econômico. É uma discussão sobre saúde pública, sobre igualdade de oportunidades e sobre justiça social. É uma discussão sobre qual sociedade queremos construir.

Não estamos falando de trabalhar menos para produzir menos. Estamos falando de organizar melhor o tempo de trabalho para que as pessoas possam viver melhor. Experiências internacionais demonstram que jornadas mais equilibradas podem resultar em maior produtividade, redução de afastamentos e melhoria da qualidade de vida.

No Brasil, essa mudança tem um significado ainda mais profundo. Ela dialoga diretamente com desigualdades históricas que atingem mulheres, pessoas negras e trabalhadores dos setores mais precarizados da economia. Dar mais tempo para viver é também enfrentar estruturas de exclusão que, há décadas, distribuem de forma desigual o peso do trabalho e os benefícios do desenvolvimento.

A aprovação na Câmara foi apenas o início dessa caminhada. O debate continuará e precisa envolver toda a sociedade. Mas considero importante que o Congresso Nacional tenha dado esse primeiro passo e reconhecido a legitimidade de uma pauta que nasce da realidade de milhões de trabalhadores e trabalhadoras brasileiras.

Defendo o fim da escala 6×1 porque acredito que o trabalho deve garantir dignidade, não exaustão. Porque acredito que desenvolvimento econômico e justiça social precisam caminhar juntos. Porque acredito que ninguém deve viver apenas para trabalhar.

O tempo de viver também é um direito. E chegou a hora de o Brasil tratar esse direito com a importância que ele merece.

Colunista: Deputada Denise Pessoa

 

 

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