APOCALIPSE NO SUPREMO
Por Redação Gazeta Gaúcha
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FATOS & COMENTÁRIOS
A crítica do cotidiano
Paulo Ricardo Corrêa*
Pelotas RS
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Diante de tudo o que está acontecendo na mais alta corte de Justiça do Brasil, com fortes reflexos na área jurídica, que já vinha demonstrando abalos sísmicos, que envolvem Moraes e Mendonça, há que se analisar os efeitos dessa hecatombe, cujas erupções detectadas diariamente.
No cerne do tornado jurídico-político, se encontram duas personagens togadas.
O pastor André Mendonça, indicado para a Suprema Corte de Justiça Brasileira por ser ‘terrivelmente evangélico’, usava seu púlpito para defender um governo totalmente desvinculado das propostas humanitárias, fraternas e de justiça social, pregadas por Jesus, quando de sua passagem pela Terra. Resultado: foi indicado, pelo hoje presidiário (domiciliar) Jair Bolsonaro e aprovado, no Senado (por 47 votos contra 32), para a cadeira vaga de Marco Aurélio de Mello o qual, por sua vez, fora indicado pelo hoje presidiário (domiciliar) Fernando Collor de Mello. Coincidência ou não, a cadeira hoje ocupada pelo pastor tem uma sina sinistra.
Outra personagem, que ganhou destaque em função da tentativa de golpe de 08/01/2023, é Alexandre de Moraes, jurista com extenso currículo, egresso do Ministério Público de São Paulo, professor de direito eleitoral na USP, com exercício de cargos públicos em vários órgãos governamentais, exercendo, desde 1999, a docência na Universidade Presbiteriana Mackenzie onde Mendonça também foi professor. Moraes foi indicado por Michel Temer, o vice-presidente de ocasião, para a vaga deixada por Teori Zavascki, tragicamente falecido em estranhas circunstâncias. Outra sina…
Aqui, necessário esclarecer que a palavra apocalipse significa revelação, e isso está bem claro no versículo 1, do capítulo 1, do livro de João Evangelista: “Revelação de Jesus Cristo, que lhe foi confiada por Deus para manifestar aos seus servos o que deve acontecer em breve. Ele, por sua vez, por intermédio de seu anjo, comunicou ao seu servo João.”.
Ali, o apóstolo de Jesus relata cenas e predições que poderiam ocorrer, com detalhes bastante enigmáticos (para a época) mas que, no decorrer dos tempos, puderam ser entendidos – pelo menos em parte. Todavia, aqui, não se pretende fazer um exercício da escatologia bíblica, mas, sim, utilizar o significado que a maioria das pessoas empresta ao Apocalipse: o fim das coisas.
No que diz respeito ao assunto, a partir do escândalo do Banco Master (diga-se, Daniel Vorcaro), os alarmistas apregoam o fim da nossa República. E os mais agitados, afirmam que, com isso, estará de volta o colonialismo, não o lusitano, mas o estadunidense, com Trump à frente do império.
A República, de Platão, é um texto que se estuda na Faculdade de Direito (pelo menos naquela que me formei, e aqui rendo homenagens ao querido amigo professor doutor Jaime John), e onde, sobre Justiça, destaca: “A justiça… não se limita às ações externas do homem, mas se aplica também à ação interior do homem sobre si mesmo… induzindo-o a governar-se, a disciplinar-se e a ser amigo de si mesmo…” (Platão, A República, Livro IV, 443d).
Vale dizer, para ser justo com os demais, os homens (não nos referimos ao gênero, mas à espécie…) devem antes de tudo, conhecer a si mesmos, no melhor ensinamento de Sócrates sobre esta máxima délfica.
A interpretação, ao final deste extenso exercício interpretativo, e aqui muitíssimo resumido, nos remete à conclusão de que a Justiça seria o resultado harmonioso e estruturado, onde cada classe exerce sua função sem invadir a das demais. Tais conceitos, se aplicam à alma individual: será justa a decisão do ser humano quando a razão, o ânimo e suas aspirações atuem cada qual no seu lugar.
É o que se vê nos movimentos dos dois ministros do STF, hoje em embate direto, mas deixando a Justiça de lado, pois focam apenas no que diz respeito às suas individualidades.
André Mendonça, por seus atos de deliberado encobrimento dos ilícitos praticados por Flávio Bolsonaro, puxou alguns – a princípio – malfeitos praticados por Alexandre de Moraes (contatos espúrios com o acusado Daniel Vorcaro) para, assim, arvorar-se paladino da justiça, mas sabendo (pelo menos em tese) que o atacado iria revidar, como o fez, encaminhando também denúncia do colega ao plenário do STF, através do seu presidente Edson Fachin, apontando atos efetuados por Mendonça, também em conluio com o mesmo ex-banqueiro.
Tudo indica, aliás, que não haverá provas de parte a parte, mas apenas indícios, e isso não vem ao caso, pois o que o arauto do Apocalipse deseja não é, de maneira alguma, a responsabilização de Moraes. Seu desejo vai além disso.
Eduardo Bolsonaro, o foragido da justiça brasileira auto exilado nos Estados Unidos, entre uma das suas falas escatológicas, lá em julho de 2018, disse que bastariam um cabo e um soldado para fechar o Supremo Tribunal Federal. Após a tentativa de golpe do 08 de janeiro de 2023, ficou claro que esses dois elementos, não se tratavam de figuras militares, mas de pessoas investidas de poder, financeiro e republicano, este último integrante de um dos poderes da República.
O financeiro, Daniel Vorcaro. O republicano, André Mendonça.
Dia após dia esse palco recebe novos atos, com mudança de cenário a todo tempo.
Voltaremos.
*Paulo Ricardo Corrêa é advogado, escritor, radialista, natural de Pelotas, tendo crescido em Rio Grande. Trabalhou na TV Rio Grande, hoje RBS, e como locutor nas rádios Cultura Riograndina e Minuano.


