O que você está tentando não sentir quando pega o celular?

Por Redação Gazeta Gaúcha

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Caxias do Sul RS

Foto: Divulgação

 

Artigo por Vítor Merêgalli – psicanalista e diretor da Célese

 

Faça um teste. Deixe o celular em outro cômodo pelas próximas duas horas. Só de imaginar já apareceu um incômodo no estômago, um “e se acontecer alguma coisa”, uma vontade de conferir uma última vez antes? Pronto, o teste deu seu resultado.
Esse desconforto tem nome: nomofobia, o medo de ficar sem o telefone. Todos os dias, pessoas descrevem o mesmo movimento. Vem “aquele” vazio, uma pontada de tédio, um pensamento incômodo, uma conversa mal resolvida. E a mão busca o aparelho antes de qualquer decisão consciente.
O problema é que a angústia não desaparece. Ela fica esperando, com juros. Quando o celular se retira, o que estava represado surge: irritação, insônia, aperto no peito, uma inquietação difícil de nomear. Não é exagero chamar isso de abstinência.
Ninguém escolheu viver desse modo conscientemente. Esses aparelhos foram desenhados para serem exatamente assim: imprevisíveis, infinitos, urgentes. Cada notificação é uma pequena aposta. Você nunca sabe se o que chegou é bom ou ruim, e é essa incerteza, o suspense, que prende. Enquanto isso, o silêncio e a conversa longa passaram a parecer insuportavelmente lentos. Nosso padrão de estímulo foi recalibrado para cima.
O preço cobrado aparece nos lugares errados. No trabalho: em profissionais que passam o dia ocupados e terminam a semana sem concluir nada relevante. Em casa: nas famílias que fazem as refeições juntas há anos, mas sem diálogo. E dentro de cada um, na perda de uma capacidade profundamente humana: suportar o tédio tempo suficiente para que um pensamento próprio desponte.
Não se trata de demonizar a tecnologia, mas de recuperar o comando da própria vida. Você consegue passar um tempo mais longo longe do celular? Se a resposta incomodou, não é vergonha: é informação que pode virar mudança. Sozinho quando dá; com ajuda profissional quando a força de vontade falha.
Termino com a pergunta que costumo fazer no consultório e que raramente recebe resposta rápida: se roubassem seu celular agora, e com ele fossem embora suas fotos, suas conversas, suas senhas, seu trabalho e seus contatos. O que exatamente você sentiria que perdeu?

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