A vitória dos democratas nas eleições de meio de mandato nos EUA impôs um revés político ao presidente norte-americano Donald Trump, reduzindo sua margem de manobra no Congresso e ampliando o escrutínio sobre iniciativas de política externa da Casa Branca.
O resultado fortalece setores que defendem maior cautela em crises internacionais e questionam o envolvimento direto dos Estados Unidos em novos conflitos no Oriente Médio. Em meio ao novo cenário político, o debate sobre a relação entre Washington, Israel e Irã volta ao centro das discussões.
Em conversa com a Sputnik, o analista político e professor da Universidade de Teerã, Seyed Mohammad Marandi, afirmou que o resultado eleitoral deve ser interpretado antes de tudo como uma manifestação de descontentamento popular com a administração Trump e sua condução de conflitos internacionais.
Segundo Marandi, os eleitores não demonstraram necessariamente apoio ao Partido Democrata, mas sim rejeição ao governo republicano, lembrando ainda que os democratas também carregam responsabilidades por intervenções e guerras promovidas pelos Estados Unidos nas últimas décadas, portanto, o analista demonstra ceticismo sobre a questão iraniana.
“Isso [o voto nos democratas] não significa que a guerra contra o Irã chegue ao fim, ainda que eles tenham votado contra a guerra. Isso não significa que o genocídio em Gaza chegue ao fim, ainda que eles tenham votado contra o genocídio. E isso não significa que a influência do sionismo sobre os Estados Unidos chegará ao fim”, afirmou Marandi.
Ao comentar as declarações de Trump de que controlaria o desfecho da guerra, o professor contestou essa avaliação. Para ele, a capacidade de determinar os rumos do conflito não está exclusivamente nas mãos da Casa Branca uma vez que o Irã demonstrou disposição para manter uma postura de confronto prolongado caso considere seus interesses ameaçados.
“Ele não está em uma posição de comando. E, claro, ele vai dizer que não se arrepende de ter cometido as atrocidades que cometeu, como o massacre de mulheres e crianças em uma guerra não provocada, porque ele é Donald Trump e porque, afinal, é assim que o império ocidental funciona“, afirmou ele lembrando que os EUA “jamais demonstram arrependimento ao invadir o Iraque ou o Afeganistão, ao destruir a Líbia, ao impor um cerco a Cuba”.
Marandi defende que a única coisa que mudará a política externa dos EUA a partir da vitória democrata é a “resistência e o despertar do povo norte-americano“. Ele explica que se os Estados Unidos e o regime sionista, liderado pelo primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, iniciarem um conflito, o custo será muito mais elevado para eles, mas destaca que Netanyahu buscaria criar condições para uma retomada da guerra, mesmo diante de possíveis resistências da opinião pública norte-americana.
“O regime israelense não quer a paz. Ele quer a guerra. E não se importa com o que o povo norte-americano diz. Ele exige que os Estados Unidos sigam suas políticas. Portanto, Netanyahu fará tudo o que for possível para reiniciar a guerra e forçar o povo norte-americano a pagar o preço”, disse Marandi.
Na avaliação do analista, uma eventual ofensiva israelense contra o Irã, no entanto, dependeria de apoio logístico e militar dos Estados Unidos, o que aumentaria o risco de envolvimento direto de Washington no conflito.
Marandi destacou que Israel necessita de capacidades estratégicas fornecidas pelos EUA, como aeronaves de reabastecimento em voo, para conduzir operações de longo alcance. Para ele, esse suporte tornaria os Estados Unidos parte integrante de uma campanha militar contra o Irã.
O especialista argumentou ainda que uma escalada militar teria impactos que ultrapassariam os dois países. Segundo sua análise, bases, espaço aéreo e infraestrutura de aliados árabes dos Estados Unidos também seriam utilizados em eventuais operações, ampliando a dimensão regional do confronto.
Na visão do professor, porém, uma guerra envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos poderia desencadear graves consequências para a economia global, afetando mercados energéticos e cadeias de abastecimento.
“Portanto, qualquer ataque ao Irã terá uma resposta decisiva, o que levará a uma calamidade econômica global. Espera-se que a vontade do povo norte-americano prevaleça sobre os sionistas, contudo, o Irã está preparado para qualquer cenário“, concluiu.
Apesar das tensões, a derrota parlamentar de Trump pode fortalecer vozes favoráveis à contenção militar, embora não elimine os riscos de uma escalada caso as tensões entre Israel e Irã se intensifiquem. Com informações site Sputnik.