O Espetáculo do “Ter”: Quando a Vitrine se Torna Mais Importante que a Loja
Por Redação Gazeta Gaúcha
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Pelotas RS
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Arquivo Gazeta Gaúcha
Coluna:
Roger Lemões Professor
Vivemos em uma era de fachadas milimetricamente calculadas. Se o filósofo Guy Debord previu, ainda no século passado, a “Sociedade do Espetáculo”, ele dificilmente anteciparia um mundo onde a realidade se tornou um mero rascunho, muitas vezes descartado em favor de uma versão editada, filtrada e saturada da existência. Hoje, o “parecer” não é apenas um complemento do “ser”; ele o atropelou.
A Ditadura do Pixel e o Eclipse da Ética
A primeira grande vítima dessa inversão de valores é a autenticidade. Nas redes sociais e nos círculos corporativos, a estética da felicidade e do sucesso financeiro tornou-se a moeda de troca universal. O problema, contudo, vai além da vaidade. Quando as aparências valem mais que a realidade, a ética passa a ser vista como um obstáculo burocrático.
Se o objetivo final é o acúmulo de capital e o status, os meios para atingi-los tornam-se secundários. Assistimos, quase entorpecidos, a uma escalada de ganância onde o lucro imediato justifica a erosão do caráter. O dinheiro deixou de ser uma ferramenta de troca para se tornar o juiz supremo da dignidade humana: se você “tem”, você “é”. Se não tem, torna-se invisível para a engrenagem social.
O Indivíduo Contra o Coletivo
Essa busca frenética pelo bem-estar pessoal a qualquer custo gerou um efeito colateral amargo: a fragmentação do tecido social. A coletividade, antes vista como a rede de segurança da civilização, hoje é frequentemente percebida como um fardo.
”O individualismo exacerbado transformou o ‘outro’ em um degrau ou em um concorrente, nunca em um aliado.”
Essa mentalidade permeia até as esferas mais íntimas. As relações familiares, que deveriam ser o último reduto de gratuidade e afeto, estão sendo mercantilizadas. Encontros de domingo dão lugar a negociações de interesses; o tempo com os filhos é substituído por gadgets caros que servem como compensação pela ausência. Estamos trocando a presença pelo presente, a convivência pela conveniência.
A Ilusão do Bem-Estar Solitário
A ironia cruel desse modelo é que, quanto mais buscamos o bem-estar isolado através do poder e da posse, mais ansiosa e deprimida a sociedade se torna. A ganância é um poço sem fundo; ela não oferece satisfação, apenas uma sede renovada.
Ao colocarmos o “ter” acima do “ser”, esquecemos que a realidade não aceita filtros por muito tempo. As crises ambientais, o isolamento emocional e a polarização política são os sintomas claros de um organismo social que decidiu ignorar o coletivo em nome de um ego inflado.
É Preciso Reverter a Lente
Não se trata de uma apologia à pobreza ou de um ataque ao sucesso, mas de um questionamento sobre as nossas prioridades. Uma sociedade que valoriza mais o brilho do ouro do que o aperto de mão, ou que admira a conta bancária de um indivíduo ignorando a rastro de destruição ética que ele deixou pelo caminho, é uma sociedade doente.
Precisamos resgatar o valor do intangível. A ética, a empatia e o senso de comunidade não podem ser comprados, mas são as únicas moedas que realmente mantêm o mundo de pé quando as luzes do espetáculo se apagam.
Colunista:
Professor Roger Lemões


