Editorial – 8 de Março: quando a voz das mulheres também ocupa o debate público

Grupo Gazeta Gaúcha

Editorial

 

O Dia Internacional da Mulher não é apenas uma data de homenagens. É, sobretudo, um momento de reflexão sobre a história de luta, conquistas e desafios que ainda marcam a trajetória das mulheres na sociedade contemporânea.

Ao longo de décadas, mulheres abriram caminhos em espaços que historicamente lhes foram negados. Na política, no jornalismo, na ciência, na educação e no empreendedorismo, cada avanço representa não apenas uma conquista individual, mas um passo coletivo rumo a uma sociedade mais equilibrada, plural e democrática.

É dentro deste espírito que a Gazeta Gaúcha / GZ1 reafirma, neste 8 de março, o seu compromisso com o pluralismo de ideias e com a valorização da participação feminina no debate público.

Mais do que registrar a data, o portal decide ampliar esse espaço.

A partir de hoje, passa a integrar o quadro de colunistas colaboradoras a deputada federal Denise Pessôa,  uma das vozes femininas que hoje representam o Rio Grande do Sul no Congresso Nacional.

Com trajetória marcada pela atuação em movimentos sociais, pela defesa de políticas públicas voltadas à justiça social e pela luta por igualdade de oportunidades, Denise Pessôa chega ao espaço editorial da Gazeta Gaúcha para contribuir com reflexões, análises e posicionamentos sobre os grandes temas que impactam a sociedade brasileira.

Denise Pessôa é deputada federal, arquiteta e urbanista, natural de Caxias do Sul. Foi vereadora no município entre 2008 e 2022 e presidiu a Câmara de Vereadores no ano em que foi eleita para a Câmara Federal. É também uma das primeiras deputadas federais negras eleitas pelo Rio Grande do Sul. Sua trajetória política é marcada pela defesa das mulheres, do serviço público, da igualdade racial, da cultura e do desenvolvimento das cidades, com foco em políticas públicas que promovam inclusão, participação social e qualidade de vida.

Sua presença neste espaço reforça uma convicção fundamental: a democracia se fortalece quando diferentes vozes encontram espaço para se expressar.

Em um momento de intensos debates políticos, econômicos e sociais no país, abrir espaço para lideranças públicas apresentarem suas visões também é uma forma de aproximar o cidadão do processo democrático.

Neste Dia Internacional da Mulher, a Gazeta Gaúcha celebra as conquistas femininas, mas também reafirma um compromisso: continuar ampliando espaços para que as mulheres não sejam apenas tema das discussões — mas protagonistas delas.

Porque quando as mulheres ocupam a política, a imprensa e os espaços de decisão, quem avança é toda a sociedade.

Redação – Gazeta Gaúcha / GZ1

Fabio Grill

 

Coluna : Deputada Federal Denise Pessôa (PT/RS)

 

Dia da Mulher: não há romantização possível enquanto mulheres ainda precisam lutar para permanecer vivas

 

Ser mulher no Brasil ainda é viver em alerta. Medo de voltar sozinha para casa, medo de terminar um relacionamento violento, medo de denunciar. Não é exagero. É realidade. As manchetes que se repetem todos os dias contam histórias diferentes, mas revelam o mesmo padrão: mulheres assassinadas dentro de casa, jovens mortas por dizer não, meninas vítimas de estupro, idosas violentadas, mães que deixam filhos para trás porque alguém decidiu que tinha poder sobre suas vidas.

O feminicídio é a expressão mais brutal de uma estrutura de desigualdade que combina machismo, racismo e desigualdade social. No Brasil, ela também tem cor. Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que 62,6% das vítimas de feminicídio no país são mulheres negras. Esse dado revela que a violência de gênero não pode ser analisada separadamente das desigualdades sociais e raciais que marcam a vida de tantas brasileiras.

Mulheres negras, muitas vezes, enfrentam uma combinação de vulnerabilidades: menor renda, maior responsabilidade pelo sustento da família e menos acesso a redes de proteção. A dependência econômica, por exemplo, ainda é um fator que mantém muitas mulheres presas em relações violentas. Em cidades como Pelotas, uma das mais negras do Rio Grande do Sul, esse debate precisa ser feito com ainda mais responsabilidade. Falar sobre violência contra mulheres também significa falar sobre desigualdade racial, acesso a direitos e presença do Estado nos territórios onde ele historicamente esteve ausente.

Outro dado revela o tamanho do problema: oito em cada dez feminicídios são cometidos por homens que mantinham ou já mantiveram relação afetiva com a vítima. E dois terços desses crimes acontecem dentro de casa. O lugar que deveria ser proteção muitas vezes se transforma no espaço da violência. Essa realidade também expõe outra fragilidade: a falta de estrutura de proteção, especialmente fora dos grandes centros. Em muitas cidades pequenas, faltam delegacias especializadas, casas-abrigo e equipes preparadas para acolher mulheres em situação de risco. Quando essas estruturas não existem, a violência cresce no silêncio.

E as consequências não param na vítima direta. Nos últimos cinco anos, o feminicídio deixou mais de 700 órfãos de mãe no Rio Grande do Sul. Crianças e adolescentes que perderam não apenas quem cuidava deles, mas também parte da sua segurança e do seu futuro.

Por isso, enfrentar a violência contra as mulheres exige mais do que discursos ocasionais em datas simbólicas. Exige decisão política. Significa fortalecer políticas públicas, ampliar redes de proteção, garantir autonomia econômica para as mulheres e enfrentar as desigualdades estruturais que tornam algumas vidas mais vulneráveis do que outras.

Não se trata de uma disputa entre homens e mulheres. Trata-se de um compromisso civilizatório básico: garantir que mulheres possam viver sem medo.

Porque nenhuma sociedade pode se considerar justa enquanto tantas mulheres ainda precisam lutar simplesmente para continuar vivas.

Deputada Federal Denise Pessôa (PT/RS)

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