NINGUEM ESCREVE AO…
Por Redação Gazeta Gaúcha
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Pelotas RS
FATOS & COMENTÁRIOS
A crítica do cotidiano
Paulo Ricardo Corrêa*
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Gabriel Garcia Marquez, escritor colombiano autor do clássico ‘Cem Anos de Solidão’, escreveu em 1961 a melancólica obra ‘Ninguém escreve ao coronel’, contando a estória de um velho militar da Guerra dos Mil Dias (conflito real da história colombiana) que, toda a sexta-feira, vai ao trapiche da cidade aguardar o navio do correio, na esperança de receber a carta que confirmaria sua aposentadoria como veterano de guerra, prometida pelo governo há décadas e, assim, sair da penúria em que ele e sua esposa vivem.
A carta nunca veio, e o final do livro é uma estupenda lição que carrego até hoje! E é sobre essa palavra final, dita eloquentemente pelo coronel protagonista do livro, após uma reflexão sobre seus 75 anos de idade, que precisamos refletir.
Diga-se, de passagem, que não li o livro tão logo foi lançado, pois eu não tinha conhecimento do vernáculo naquela época, li-o bem depois, quando assumi a realidade da vida de milhões de brasileiros.
Trava-se no Congresso Nacional, em verdade agora no Senado, uma batalha política em torno da aprovação, ou não, do fim da escala de trabalho semanal conhecida por ‘6×1’ (seis de trabalho, um de descanso) e, no lado dos que defendem sua permanência, surge uma esdrúxula proposta (que considero uma piada de muito mau gosto) de 7×0 (ou seja, trabalho escravo).
Após a reforma trabalhista, com a retirada de inúmeras vantagens que o trabalho conseguiu sobre o capital (aqui usamos estes substantivos para designar as duas forças que, a princípio, geram riqueza), as ideias de Vargas e Brizola se esvaíram a favor do capital, jogando conquistas sedimentadas pelo sindicalismo na vala comum da ‘negociação com o patrão’, em franco retrocesso nessa injusta peleia que, no mais das vezes, gera desemprego, sendo certo que a Carta Magna da nossa República (tão vilipendiada pelos sedizentes ‘patriotas’), trata a busca pelo pleno emprego como meta (art. 170, VIII, CF).
A Constituição, chamada cidadã por Ulysses Guimarães na época, estabelecia no título Da Ordem Econômica, todo o arcabouço para que aquele projeto de tributação dos mais ricos, pudesse ser aplicado. Mas a resistência do ‘capital’ é, e sempre foi, enorme, concentrando o financeiro nas mãos de muito poucos, enquanto o econômico fica a cargo dos muitos que os defendem, mesmo que estes não tenham a mesma classe daqueles na pirâmide social.
Porém, fala-se ‘a boca pequena’ (como diria meu saudoso pai), como panaceia para os afetados pela não aceitação da redução da jornada, que os desempregados devem continuar a ser amparados pelo seguro-desemprego e, aqueles que não encontrem ocupação após o período do seguro, poderiam viver do bolsa-família.
Ora, para custear os programas sociais dos governos, e quando os governos se predispõe a executá-los, ou seja, apenas aqueles que querem implantar a justiça social, é necessário que haja aporte financeiro no caixa e tal, para que seja algo substancial, a taxação dos super ricos é uma excelente saída.
A ideia é taxar em 10% a renda dos que auferem, anualmente, R$ 1,2 milhões e os lucros e dividendos de R$ 50 mil mensais por empresa. Nada exorbitante, se compararmos com a taxação mensal do assalariado em 27,5%, agora com um alento de isenção aos que recebem até R$ 5 mil.
Todavia, o que se observa, e isso desde o tempo do regime militar – dizem os historiadores que até antes… – é a imposição da chamada classe dominante (os super ricos), com a anuência e concordância de muitos assalariados, cuja consciência de classe não condiz com a própria posição social, para que os que necessitam dos programas sociais dos governos, municipais, estaduais e federal, sigam a mesma sina do coronel e sua mulher:
“ – E enquanto isso, o que a gente come?” Pergunta ela, agarrando o coronel pelo colarinho da camisa, sacudindo-o com energia. “ – O que a gente come?”.
A resposta veio com a mais profunda reflexão de seus 75 anos:
“ – Mer..!”
*Paulo Ricardo Corrêa é advogado, escritor, radialista, natural de Pelotas, tendo crescido em Rio Grande. Trabalhou na TV Rio Grande, hoje RBS, e como locutor nas rádios Cultura Riograndina e Minuano.
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