FATOS & COMENTÁRIOS

Por Redação Gazeta Gaúcha

Portal GZ1.com.br

Paulo Ricardo Corrêa*

Pelotas RS

Foto: Gazeta

 

FATOS & COMENTÁRIOS
A crítica do cotidiano

 

ASSIM NA TERRA…

 

Desnecessário dizer que o título da crônica nada tem a ver com a mais conhecida prece católica/cristã. Tem sim, muito mais que isso, com tudo o que está acontecendo na sociedade, como um todo, fruto das mais diversas manifestações que a psique humana pode produzir.

Nos últimos tempos, mais notadamente a partir da ascensão ao poder político de pessoas sedizentes defensoras das tradições, pátria e família, assistimos estarrecidos notícias assustadoras sobre fatos que, no mínimo, remontam à denominada Idade das Trevas. Salienta-se que, hoje, os historiadores evitam utilizar tal rótulo para o período situado entre os séculos V e IX, pois ele abrange a Idade Média, tempo também marcado por grandes avanços culturais e tecnológicos.

E é justamente por isso que, nos dias de hoje, se faz necessário a comparação com esse nosso obscuro passado. Afinal, como assinalou o poeta e filósofo hispano-estadunidense George Santayana: “Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”.

A fase socioantropológica, que aqui referimos como Idade das Trevas, revelou o que o ser humano tem de mais horrendo, trazendo à memória daqueles que se importam em buscar o passado para compreender o futuro, e lutar por um melhor, atos muitos semelhantes a estes que estamos sofrendo, principalmente proporcionados pela proliferação do acesso às chamadas redes sociais, à tecnologia da comunicação e ao anonimato garantido pelas corporações detentoras dos algoritmos e servidores informáticos.

A rede criminosa que foi desvendada na cidade de Bagé é, talvez, a mais assustadora dessas expressões humanas, e rogamos que, a partir dela, possam as autoridades constituídas por nós, o povo, agir rapidamente para criar mecanismos de controle e precaução, evitando assim o estímulo ao crime lá perpetrado.

Mas não só isso.

Dentro das corporações estatuídas para atuar na segurança pública, também estão sendo revelados focos de barbárie, descontrole e falta de parâmetros nos protocolos, os quais proporcionam, inclusive, casos como o de Gabriel, menino cruelmente assassinado por policiais, julgados há pouco pelo Tribunal do Júri em São Gabriel.

Em crônica anterior, referimos a necessidade de reformular os estatutos das nossas polícias militares, como um todo, lembrando o então abafado projeto do saudoso jurista José Paulo Bisol.

Lembramos que, nos últimos 50 anos, a Humanidade deu um salto tecnológico incrível, como também foi estimulado o combate ao obscurantismo. Porém, nos últimos 25 anos, notadamente nos últimos 10, e mais proximamente durante a Pandemia da CoVid-19, surgiram ideias que trouxeram de volta costumes os quais, pela lógica e pela razão, já deveriam ter sido soterrados.

Quando lemos notícias como aquela de Bagé, uma frase sempre me chama a atenção. Em O Livro dos Espíritos, codificado pelo professor, autor e tradutor francês, Hippolyte Léon Denizard Rivail, mundialmente conhecido por Allan Kardec, a resposta na questão 784 esclarece: “Faz-se necessário que o mal chegue ao excesso, para tornar compreensível a necessidade do bem e das reformas.”.

Com efeito, se afigura que estamos diante da hipótese doutrinária.

Assim, espera-se que, a partir de tais fatos tão marcantes, possam nossos legisladores e governantes, a par de todas as demais mazelas que rondam nossa sociedade brasileira, também nesses dois pontos específicos, segurança digital e segurança coletiva, criarem as condições necessárias para garantir ambas.

Ainda há tempo para corrigir tais caminhos, sim. Porém, infelizmente, esta metade do Século XXI entrará para a História do Brasil, como hoje se recorda da eurocêntrica Idade das Trevas.

Evidentemente o assunto não se esgota aqui. Citando o Colega José Antonio Pinheiro Machado: voltaremos.

*Paulo Ricardo Corrêa é advogado, escritor, radialista, natural de Pelotas, tendo crescido em Rio Grande. Trabalhou na TV Rio Grande, hoje RBS, e como locutor nas rádios Cultura Riograndina e Minuano.

 

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